terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Romantismo: A Utopia do Jovem Werther

O Romantismo, ao contrário do que comumente se pensa, foi mais do que um movimento artístico: foi também um movimento político e filosófico, surgido no século XVIII e fortalecido no século XIX, para contrapor as ideias racionalistas e iluministas em voga na época. Derivou dele, inclusive, o forte nacionalismo que veio a consolidar os estados nacionais da Europa da época. Ou seja, foi tão determinante e revolucionário quanto os movimentos a ele antagônicos, embora não tivesse, em sua origem, tal pretensão.

Quem já leu o livro ‘’Os Sofrimentos do Jovem Werther’’ (metade da gurizada parou de ler o texto, após ver o título) de Johann Wolfgang Goethe, pôde ter uma ideia deste sentimento que havia na Europa daquela época, e que foi amplamente disseminado pelo sucesso de tal publicação. O personagem-título é um romântico inveterado, daqueles capazes de chorar ao vislumbrar a beleza corriqueira de um dia de sol. Seus sentimentos, estão todos, e sempre, à flor da pele e esta efusão sentimental permeia toda a história, do início ao fim do romance.

A obra foi um estrondoso sucesso na época, e foi um divisor de águas na literatura universal, praticamente inaugurando o romantismo, em pleno século XVIII, quando a tendência era justamente ir de encontro ao sentimento e irracionalidade, numa era de pragmatismo, descrença e cinismo. O sucesso foi tamanho, que os jovens enamorados da época, identificando-se com o personagem-título, começaram a usar o mesmo traje descrito pelo autor, como símbolo do sentimento romântico: uma casaca azul com colete amarelo. Sem falar que a onda de suicídios (ato cometido por Werther) aumentou consideravelmente após o seu lançamento.

A história é contada através das cartas enviadas por Werther a um amigo, e, na parte final, do editor ao leitor, para explicar o desenrolar e desfecho completos da história. Por vezes, a profusão exagerada de sentimentos talvez possa cansar um pouco o leitor de hoje. Mas a construção primorosa, a soberba da escrita, a beleza das imagens figurativas e a riqueza descritiva da psique de Werther compensam esta suposta mácula, para os padrões culturais atuais. O modo como o sentimento vai crescendo até tornar-se senhor de todo o seu coração, tornando impossível que ele possa imaginar continuar a viver sem a mulher, que, para ele, é a única razão para tal, chega a tirar o fôlego do leitor, que acaba por torcer ardentemente pelo fim daquela loucura obsessiva e torturante, e que, como já foi dito, termina com Werther sucumbindo à sua melancolia doentia e fatal.

Aliado ao talento de Goethe, outro fator que contribuiu para que o autor pudesse criar um personagem como Werther, com tamanha paixão, efusividade e desespero, com a verdade insuperável que ele impôs ao personagem, foi que o próprio Goethe viveu história bem semelhante a de Werther. Ele estava apaixonado por uma mulher chamada Carlota (no romance, Charlotte) e se correspondia com o casal através de cartas, nas quais chegava a fazer declarações nada sutis de amor à sua amada, tal como Goethe se relacionava com Charlotte e seu marido, Kestner. Há até quem diga que a linhagem dos Palhares descende diretamente dele.  Já a segunda parte do romance é a história de Karl Jerusalem, que também fazia parte do círculo de amigos, e também apaixonara-se por uma mulher casada de um outro membro do grupo, tendo tido o mesmo fim que Werther teve na ficção. Para completar a ironia da coisa toda, Goethe ficou sabendo desta história por Kestner, que no romance tem o nome de Alberto, e que este havia emprestado as pistolas com as quais o pobre Jerusalem suicidou-se. Assim, Goethe usa Werther para suicidar-se na ficção e manter-se vivo. No romance, quem empresta as pistolas a Werther é (adivinhem!) Alberto/Kestner!

Meus caros, antigamente, até mesmo um barraco à La Big Brother tinha riqueza e demandava talento. Quem não tiver lido ainda, recomendo que o faça, se não estiver arrebatado por um amor impossível. Caso contrário, não leia. Se insistir, tome doses cavalares de antidepressivos e fique longe de objetos cortantes.

2 Beberam:

Márcio Palhares disse...

Não pude deixar de lembrar da cena do filme Endiabrado, com Brendan Fraser, em que o protagonista pede ao Diabo para ser o cara mais sensível do mundo, a fim de conquistar a garota dos sonhos,mas ao tentar conquistá-la não para de chorar ao ver o por do sol, hehe.


Veja imagem aqui
e
Veja o vídeo aqui

Marcelo Simas disse...

hehehe...bem legal essa cena. Concordo contigo. Quando se trata de mulheres, muita sensibilidade estraga.